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terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Cristianismo puro e simples de C. S. LEWIS - livro I


Nota do post: Em todo o blog Missão Berseba raramente encontramos uma seleção tão loga retirada de um livro seja em porções juntadas ou em longo trecho selecionado. Esta constante não é obedecida nesta postagem devido à grandeza das argumentações e pertinência das observações vindas através de C. S. Lewis. Acreditamos que devido à urgência e vital necessidade das pessoas conhecerem a verdade esta deve ser divulgada e não impedida por certos formalismos. Porém incentivamos aos leitores que adquiram o total da obra para se aprofundarem e refletirem em suas constatações, e editora, detentores do direito da obra e outros sejam também contemplados financeiramente. Agradecemos a compreensão de todos!

Mas vamos ao livro I da série, a começar por sua introdução:

Introdução


Este livro deve ser interpretado à luz de seu contex­to histórico. Num ato de coragem, seu autor quis con­tar histórias que curassem os corações num mundo que perdera a sanidade. Em 1942, apenas vinte e quatro anos depois do fim de uma guerra brutal que dizimara uma geração inteira de jovens, a Grã-Bretanha via-se de novo envolvida numa guerra. Dessa vez, quem sofria mais eram os seus cidadãos comuns, na medida em que a peque­na nação insular era bombardeada todas as noites por quatrocentos aviões, na blitz[1] de triste lembrança que mudou a face da guerra, transformando civis em alvos e suas cidades em fronts de batalha.
Ainda rapaz, C. S. Lewis serviu nas pavorosas trin­cheiras da Primeira Guerra Mundial e, em 1940, quando as bombas começaram a cair sobre a Inglaterra, se alistou como oficial da vigilância antiaérea e passou a dar pa­lestras para os soldados da Royal Air Force, homens que sabiam, com quase toda a certeza, que seriam dados co­mo mortos ou desaparecidos depois de apenas treze mis­sões de bombardeio. A situação deles incitou Lewis a fa­lar sobre os problemas do sofrimento, da dor e do mal. Estes trabalhos resultaram no convite da BBC para que ele fizesse uma série de programas de rádio sobre a fé crista. Ministradas de 1942 a 1944, estas conferências ra­diofónicas foram mais tarde reunidas no livro que co­nhecemos hoje como Cristianismo puro e simples.
Este livro, portanto, não é feito de especulações filo­sóficas académicas. E, isto sim, um trabalho de litera­tura oral dirigido a um povo em guerra. Quão insólito devia ser ligar o rádio — que a toda hora dava notícias de mortes e de uma destruição indescritível — e ouvir um homem falar, de forma inteligente, bem-humorada e profunda, sobre o comportamento digno e humano, sobre a conduta leal e sobre a importância da distinção entre o certo e o errado. Chamado pela BBC para expli­car aos seus conterrâneos no que os cristãos acreditavam, C. S. Lewis lançou-se à tarefa como se ela fosse a coisa mais fácil do mundo, mas também a mais importante.
Mal podemos imaginar o efeito que as metáforas utilizadas no livro tiveram sobre os ouvintes na época. A imagem do mundo como um território ocupado pelo inimigo, invadido por forças malignas que destroem tudo o que é bom, ainda hoje desperta fortes associações. Nossos conceitos de modernidade e de progresso, bem como todos os avanços tecnológicos, não bastaram para dar fim às guerras. O fato de termos declarado ob­soleta a noção de pecado não diminuiu o sofrimento humano. E as respostas fáceis — colocar a culpa na tec­nologia ou, por que não, nas religiões do mundo - não resolveram o problema. O problema, C. S. Lewis insis­tia, somos nós. A geração ímpia e perversa da qual fa­lavam milhares de anos atrás os salmistas e os profetas é também a nossa, sempre que nos submetemos a ma­les sistémicos e individuais como se não tivéssemos ou­tra alternativa.
C. S. Lewis, que certa vez foi descrito por um ami­go como um homem apaixonado pela imaginação, acreditava que a aceitação complacente do status quo era muito mais do que uma fraqueza inócua. Em Cris­tianismo puro e simples, não menos do que em suas obras de fantasia, como as Crónicas de Nárnia ou os ro­mances de ficção científica, Lewis deixa escapar sua crença profunda no poder que a imaginação humana tem de revelar a verdade oculta a respeito de nossa con­dição e de nos trazer esperança. "O caminho mais lon­go é o mais curto para chegar em casa"[2] — tal é a lógica tanto das fábulas quanto da fé.
Falando unicamente com a autoridade da expe­riência de leigo e ex-ateu, C. S. Lewis disse aos ouvintes na rádio que o motivo pelo qual fora selecionado para a missão de explicar o cristianismo para a nova geração era o de não ser ele um especialista no assunto, mas antes "um amador... e um iniciante, não uma mão calejada"[3]. Confidenciou a amigos que aceitara a tarefa porque acreditava que a Inglaterra, que passara a se considerar como parte de um mundo "pós-cristão", nunca tinha aprendido de fato, em termos simples, em que consistia a religião. Assim como Soren Kierkegaard antes dele, e de Dietrich Bonhoefifer, seu contemporâneo, Lewis bus­cou, em Cristianismo puro e simples, nos ajudar a ver a religião com novos olhos, como uma fé radical cujos par­tidários devem ser comparados a um grupo clandesti­no agrupado numa zona de guerra, num lugar onde o mal parece predominar, para ouvir mensagens de espe­rança vindas do lado livre.
O cristianismo "puro e simples" de C. S. Lewis não é uma filosofia nem mesmo uma teologia que deve ser lida, discutida e guardada na estante. E um modo de vida que nos desafia sempre a lembrar, como Lewis disse cer­ta vez, que "não existem pessoas comuns", e que "aque­les de quem fazemos troça, com quem trabalhamos ou nos casamos, os que menosprezamos ou exploramos, são todos imortais"[4]. Quando entramos em sintonia com essa realidade, crê Lewis, nos abrimos para transformar imaginativamente nossas vidas de tal forma que o mal declina e o bem triunfa. E isto que Cristo quis de nós quando tomou para si nossa humanidade, santificou nossa carne e nos pediu em troca que revelássemos Deus uns aos outros.


KATHLEEN NORRIS



Livro I

O CERTO E O ERRADO COMO CHAVES PARA A COMPREENSÃO DO SENTIDO DO UNIVERSO

1. A LEI DA NATUREZA HUMANA


...Dizem, por exemplo: "Você gostaria que fi­zessem o mesmo com você?"; "Desculpe, esse banco é meu, eu sentei aqui primeiro"; "Deixe-o em paz, que ele não lhe está fazendo nada de mal"; "Por que você teve de entrar na frente?"; "Dê-me um pedaço da sua laran­ja, pois eu lhe dei um pedaço da minha"; e "Poxa, você prometeu!" Essas coisas são ditas todos os dias por pes­soas cultas e incultas, por adultos e crianças...

Está claro que os envolvidos na dis­cussão conhecem uma lei ou regra de conduta leal, de comportamento digno ou moral, ou como quer que o queiramos chamar, com a qual efetivamente concordam. E eles conhecem essa lei. Se não conhecessem, talvez lutassem como animais ferozes, mas não poderiam "dis­cutir" no sentido humano desta palavra. A intenção da discussão é mostrar que o outro está errado. Não have­ria sentido em demonstrá-lo se você e ele não tivessem algum tipo de consenso sobre o que é certo e o que é errado, da mesma forma que não haveria sentido em marcar a falta de um jogador de futebol sem que hou­vesse uma concordância prévia sobre as regras do jogo. Ora, essa lei ou regra do certo e do errado era cha­mada de Lei Natural...

Examinemos a questão sob outro prisma. Todo ho­mem está continuamente sujeito a diversos conjuntos de leis, mas a apenas um ele é livre para desobedecer. Enquanto corpo, ele é regido pela gravitação e não pode desobedecê-la; se ficar suspenso no ar, sem apoio, fatal­mente cairá como cairia uma pedra. Enquanto organis­mo, está sujeito a diversas leis biológicas, às quais, como os animais, não pode desobedecer. Em outras palavras, o homem não pode desobedecer às leis que tem em comum com os outros seres; mas a lei própria da natureza hu­mana, a lei que não é compartilhada nem pelos animais, nem pelos vegetais, nem pelos seres inorgânicos, a esta lei o ser humano pode desobedecer, se assim quiser. Essa lei era chamada de Lei Natural porque as pes­soas pensavam que todos a conheciam naturalmente e não precisavam que outros a ensinassem. Isso, evidente­mente, não significava que não se pudesse encontrar, aqui e ali, um indivíduo que a ignorasse, assim como existem indivíduos daltônicos ou desafinados...

Sei que certas pessoas afirmam que a ideia de uma Lei Natural ou lei de dignidade de comportamento, co­nhecida de todos os homens, não tem fundamento, por­que as diversas civilizações e os povos das diversas épocas tiveram doutrinas morais muito diferentes.

Mas isso não é verdade. E certo que existem diferen­ças entre as doutrinas morais dos diversos povos, mas elas nunca chegaram a constituir algo que se asseme­lhasse a uma diferença total. Se alguém se der ao traba­lho de comparar os ensinamentos morais dos antigos egípcios, dos babilónios, dos hindus, dos chineses, dos gregos e dos romanos, ficará surpreso, isto sim, com o imenso grau de semelhança que eles têm entre si e tam­bém com nossos próprios ensinamentos morais...

Os povos discordaram a respeito de quem são as pessoas com quem você deve ser altruís­ta - sua família, seus compatriotas ou todo o género humano; mas sempre concordaram em que você não deve colocar a si mesmo em primeiro lugar. O egoísmo nunca foi admirado. Os homens divergiram quanto ao número de esposas que podiam ter, se uma ou quatro; mas sempre concordaram em que você não pode sim­plesmente ter qualquer mulher que lhe apetecer.

O mais extraordinário, porém, é que, sempre que encontramos um homem a afirmar que não acredita na existência do certo e do errado, vemos logo em segui­da este mesmo homem mudar de opinião. Ele pode não cumprir a palavra que lhe deu, mas, se você fizer a mes­ma coisa, ele lhe dirá "Não é justo!" antes que você pos­sa dizer "Cristóvão Colombo". Um país pode dizer que os tratados de nada valem; porém, no momento seguinte, porá sua causa a perder afirmando que o tratado espe­cífico que pretende romper não é um tratado justo. Se os tratados de nada valem, se não existe um certo e um errado — em outras palavras, se não existe uma Lei Na­tural -, qual a diferença entre um tratado justo e um in­justo? ...

Só estou ten­tando chamar a atenção para um fato: o de que, neste ano, neste mês ou, com maior probabilidade, hoje mes­mo, todos nós deixamos de praticar a conduta que gos­taríamos que os outros tivessem em relação a nós. Pode­mos apresentar mil e uma desculpas por termos agido assim...

Ou seja, nem sempre consigo cumprir a Lei Natural, e, quando alguém me adverte de que a descumpri, me vem à cabeça um rosário de desculpas que dá várias vol­tas ao redor do pescoço. A pergunta que devemos fazer não é se essas desculpas são boas ou más. O que impor­ta é que elas dão prova da nossa profunda crença na Lei Natural, quer tenhamos consciência de acreditar nela, quer não. Se não acreditássemos na boa conduta, por que a ânsia de encontrar justificativas para qualquer des­lize? A verdade é que acreditamos a tal ponto na decên­cia e na dignidade, e sentimos com tanta força a pressão da Soberania da Lei, que não temos coragem de encarar o fato de que a transgredimos. Logo, tentamos transfe­rir para os outros a responsabilidade pela transgressão. Perceba que é só para o mau comportamento que nos damos ao trabalho de encontrar tantas explicações. São somente as fraquezas que procuramos justificar pelo cansaço, pela preocupação ou pela fome. Nossas boas qualidades, atribuímo-las a nós mesmos.

São essas, pois, as duas ideias centrais que preten­dia expor. Primeiro, a de que os seres humanos, em todas as regiões da Terra, possuem a singular noção de que devem comportar-se de uma certa maneira, e, por mais que tentem, não conseguem se livrar dessa noção. Se­gundo, que na prática não se comportam dessa manei­ra. Os homens conhecem a Lei Natural e transgridem-na. Esses dois fatos são o fundamento de todo pensamen­to claro a respeito de nós mesmos e do universo em que vivemos...

2. ALGUMAS OBJEÇÕES
...



Volto agora ao que disse no final do primeiro capí­tulo: que a raça humana tem duas características curiosas. Em primeiro lugar, que os homens são assombrados pela ideia de um padrão de comportamento que se sentem obrigados a pôr em prática, o qual se poderia chamar de conduta leal, decência, moralidade ou Lei Natural. Em segundo lugar, que eles não o põem em prática. Al­guns de vocês podem se perguntar por que razão cha­mei de "curioso" isso que pode lhes parecer a coisa mais natural do mundo. Em especial, talvez vocês me tenham achado muito duro com a humanidade; afinal de con­tas, aquilo que chamei de transgressão da Lei do Certo e do Errado, ou da Lei Natural, significa somente que ninguém é perfeito. E por que, ó céus, esperaria eu o contrário? Essa seria uma boa resposta se tudo o que eu pretendesse fosse medir numa balança a culpa exata que cabe a cada um de nós por não nos termos portado como queremos que os outros se portem. Não é essa, porém, a tarefa que me propus. Nesta investigação, não estou preocupado com a culpa; estou tentando desco­brir a Verdade. Desse ponto de vista, a própria ideia de imperfeição, de algo que não é o que deveria ser, tem suas consequências...

A lei da gravidade nos diz o que a pedra faz quan­do cai; já a Lei da Natureza Humana nos diz o que os seres humanos deveriam fazer e não fazem. Ou seja, quando tratamos de seres humanos, existe algo além e acima dos fatos. Existem os fatos (como os homens se comportam) e também uma outra coisa (como deve­riam se comportar). No resto do universo, não há necessidade de outra coisa que não os fatos. Elétrons e mo­léculas comportam-se de determinada maneira e disso decorrem certos resultados, e talvez o assunto pare aí[5]. Os homens, no entanto, comportam-se de determina­da maneira e o assunto não pára aí, já que estamos sem­pre conscientes de que o comportamento deles deveria ser diferente.
Isso é tão singular que ficamos tentados a nos en­ganar com falsas explicações. Podemos, por exemplo, afirmar que, quando você diz que um homem não de­veria fazer o que fez, quer dizer a mesma coisa quando assevera que a pedra tem a forma errada: ou seja, que a atitude dele é inconveniente para você. Mas isso é simplesmente falso. Um homem que chega primeiro no trem e ocupa um bom assento é tão inconveniente quanto um homem que tira minha mala do assento e o ocupa sorrateiramente enquanto estou de costas. Po­rém, não culpo o primeiro homem, mas culpo o se­gundo. Não fico bravo - exceto talvez por um breve momento, até recuperar a razão - com uma pessoa que por acidente me faz tropeçar, mas ficot bravo com al­guém que tenta me fazer tropeçar de propósito, mes­mo que não consiga. Porém, foi a primeira pessoa que efetivamente me machucou, e não a segunda...

Certas pessoas dizem que, apesar de a boa condu­ta não ser o que traz vantagens para cada pessoa indi­vidualmente, pode significar o que traz vantagens para a humanidade como um todo; e, portanto, a coisa não seria tão misteriosa. Os seres humanos, no fim das con­tas, possuem algum bom senso; percebem que a segu­rança e a felicidade só são possíveis numa sociedade em que cada qual age com lealdade, e é por perceber isso que tentam conduzir-se com decência. Ora, é perfeitamente verdadeira a ideia de que a segurança e a felicidade só podem vir quando os indivíduos, as classes sociais e os países são honestos, justos e bons uns com os outros. E uma das verdades mais importantes do mundo. Ela só não consegue explicar por que temos tais e tais senti­mentos diante do Certo e do Errado. Se eu perguntar: "Por que devo ser altruísta?", e você responder: "Porque isso é bom para a sociedade", poderei retrucar: "Por que devo me importar com o que é bom para a socie­dade se isso não me traz vantagens pessoais?", ao que você terá de responder: "Porque você deve ser altruísta" - o que nos leva de volta ao ponto de partida. O que você diz é verdade, mas não nos faz avançar. Se um ho­mem pergunta o motivo de se jogar futebol, de nada adianta responder que é "fazer gois", pois tentar fazer gois é o próprio jogo, e não o motivo pelo qual o joga­mos. No final, estamos dizendo somente que "futebol é futebol" - o que é verdade, mas não precisa ser dito. Da mesma forma, se uma pessoa pergunta o motivo de se agir com decência, não vale a pena responder "para o bem da sociedade", pois tentar beneficiar a sociedade, ou, em outras palavras, ser altruísta (pois "sociedade", no fim das contas, significa apenas "as outras pessoas"), é um dos elementos da decência. Tudo o que se estará dizendo é que uma conduta decente é uma conduta de­cente...

A Lei Moral, ou Lei da Natureza Humana, não é sim­plesmente um fato a respeito do comportamento hu­mano, como a Lei da Gravidade é ou pode ser simples­mente um fato a respeito do comportamento dos ob-jetos pesados. Por outro lado, não é mera fantasia, pois não conseguimos nos desvencilhar dessa ideia; se con­seguíssemos, a maior parte das coisas que dizemos sobre os homens seria absurda. Ela também não é uma sim­ples declaração de como gostaríamos que os homens se comportassem para a nossa conveniência, pois o com­portamento que taxamos de mau ou injusto nem sempre é inconveniente, e, muitas vezes, é exatamente o con­trário. Consequentemente, essa Regra do Certo e do Er­rado, ou Lei da Natureza Humana, ou como quer que você queira chamá-la, deve ser uma Verdade - uma coisa que existe realmente, e não uma invenção huma­na. E, no entanto, não é um fato no mesmo sentido em que o comportamento efetivo das pessoas é um fato. Co­meça a ficar claro que teremos de admitir a existência de mais de um plano de realidade; e que, neste caso em particular, existe algo que está além e acima dos fatos comuns do comportamento humano, algo que no en­tanto é perfeitamente real - uma lei verdadeira, que ne­nhum de nós elaborou, mas que nos sentimos obrigados a cumprir.

4. O QUE EXISTE POR TRÁS DA LEI

...A Lei da Natu­reza Humana, ou Lei do Certo e do Errado, é algo que transcende os fatos do comportamento humano. Neste caso, além dos fatos em si, existe outra coisa - uma verdadeira lei que não inventamos e à qual sabemos que devemos obedecer.


Quero considerar agora o que isso nos diz sobre o universo em que vivemos. Desde que o homem se tor­nou capaz de pensar, ele se pergunta no que consiste o universo e como ele veio a existir. Grosso modo, dois pontos de vista foram sustentados. O primeiro deles é o que chamamos de materialista. Quem o adota afirma que a matéria e o espaço simplesmente existem e sem­pre existiram, ninguém sabe por quê. A matéria, que se comporta de formas fixas, veio, por algum acidente, a produzir criaturas como nós, criaturas capazes de pen­sar. Numa chance em mil, um corpo se chocou contra o sol e gerou os planetas. Por outra chance infinitesimal, as substâncias químicas necessárias à vida e a tempera­tura correta se fizeram presentes num desses planetas, e, assim, uma parte da matéria desse planeta ganhou vida. Depois, por uma longuíssima série de coincidências, as criaturas viventes se desenvolveram até se tornarem se­res como nós. O outro ponto de vista é o religioso[6]. Se­gundo ele, o que existe por trás do universo se assemelha mais a uma mente que a qualquer outra coisa conhecida. Ou seja, é algo consciente e dotado de objetivos e pre­ferências. De acordo com essa visão, esse ser criou o universo. Alguns dos seus desígnios são ocultos, enquanto outros são bastante claros: produzir criaturas semelhan­tes a si mesmo — quero dizer, semelhantes na medida em possuem mentes. Por favor, não pensem que um destes pontos de vista era sustentado há muito tempo e aos poucos foi cedendo lugar ao outro. Onde quer que tenha havido homens pensantes, os dois pontos de vista sem­pre apareceram de uma forma ou de outra. Notem tam­bém que, para saber qual deles é o correto, não pode­mos apelar à ciência no sentido comum dessa palavra. A ciência funciona a partir da experiência e observa como as coisas se comportam...

Quan­to mais sério for o homem de ciência, mais (no meu entender) ele concordará comigo quanto ao papel dela - papel, aliás, extremamente útil e necessário. Agora, per­guntas como "Por que algo veio a existir?" e "Será que existe algo - algo de outra espécie — por trás das coisas que a ciência observa?" não são perguntas científicas. Se existe "algo por trás", ou ele há de manter-se totalmente desconhecido para o homem ou far-se-á revelar por outros meios. A ciência não pode dizer nem que este ser existe nem que não existe, e os verdadeiros cientis­tas geralmente não fazem essas declarações. São quase sempre jornalistas e romancistas de sucesso que as pro­duzem a partir de informações coletadas em manuais de ciência popular e assimiladas de maneira imperfei­ta. Afinal de contas, tudo não passa de uma questão de bom senso. Suponha que a ciência algum dia se tornas­se completa, tendo o conhecimento total de cada mí­nimo detalhe do universo. Não é óbvio que perguntas como "Por que existe um universo?", "Por que ele con­tinua existindo?" e "Qual o significado de sua existên­cia?" continuariam intactas?

Deveríamos perder as esperanças, não fosse por um detalhe. No universo inteiro, existe uma coisa, e somen­te uma, que nós conhecemos melhor do que conhecería­mos se contássemos somente com a observação externa. Essa coisa é o Ser Humano. Nós não nos limitamos a observar o ser humano, nós somos seres humanos. Nes­se caso, podemos dizer que as informações que possuí­mos vêm "de dentro". Estamos a par do assunto. Por cau­sa disto, sabemos que os seres humanos estão sujeitos a uma lei moral que não foi criada por eles, que não con­seguem tirar do seu horizonte mesmo quando tentam e à qual sabem que devem obedecer. Alguém que estudasse o homem "de fora", da maneira como estudamos a eletricidade ou os repolhos, sem conhecer a nossa lín­gua e, portanto, impossibilitado de obter conhecimen­to do nosso interior, não teria a mais vaga ideia da exis­tência desta lei moral a partir da observação de nossos atos. Como poderia ter? Suas observações se resumiriam ao que fazemos, ao passo que essa lei diz respeito ao que deveríamos fazer. Do mesmo modo, se existe algo acima ou por trás dos fatos observados sobre as pedras ou sobre o clima, nós, estudando-os de fora, não temos a menor esperança de descobrir o que ele é.

A natureza da questão é a seguinte: queremos saber se o universo simplesmente é o que é, sem nenhuma razão especial, ou se existe por trás dele um poder que o produziu tal como o conhecemos. Uma vez que esse poder, se ele existe, não seria um dos fatos observados, mas a realidade que os produziu, a mera observação dos fenómenos não pode encontrá-lo. Existe apenas um ca­so no qual podemos saber se esse "algo mais" existe; a saber, o nosso caso. E, nesse caso, constatamos que exis­te. Ou examinemos a questão de outro ângulo. Se existis­se um poder exterior que controlasse o universo, ele não poderia se revelar para nós como um dos fatos do pró­prio universo - da mesma forma que o arquiteto de uma casa não pode ser uma de suas escadas, paredes ou larei­ra. A única maneira pela qual podemos esperar que esta força se manifeste é dentro de nós mesmos, como uma influência ou voz de comando que tente nos levar a adotar uma determinada conduta. E justamente isso que descobrimos dentro de nós. Já não deveríamos ficar com a pulga atrás da orelha? No único caso em que po­demos encontrar uma resposta, ela é positiva; nos outros, em que não há respostas, entendemos por que não po­demos encontrá-las. Suponha que alguém me pergun­tasse, acerca de um homem de uniforme azul que passa de casa em casa depositando envelopes de papel em cada uma delas, por que, afinal, eu concluo que dentro dos envelopes existem cartas. Eu responderia: "Porque sem­pre que ele deixa envelopes parecidos na minha casa, dentro deles há uma carta para mim." Se o interlocutor objetasse: "Mas você nunca viu as cartas que supõe que as outras pessoas recebam", eu diria: "E claro que não, e nem quero vê-las, porque não foram endereçadas a mim. Eu imagino o conteúdo dos envelopes que não posso abrir pelo dos envelopes que posso." O mesmo se dá aqui. O único envelope que posso abrir é o Ser Hu­mano. Quando o faço, e especialmente quando abro o Ser Humano chamado "Eu", descubro que não existo por mim mesmo, mas que vivo sob uma lei, que algo ou alguém quer que eu me comporte de determinada forma. E claro que não acho que, se pudesse entrar na existência de uma pedra ou de uma árvore, encontraria exatamente a mesma coisa, assim como não acho que as pessoas da minha rua recebam exatamente as mesmas cartas que eu. Devo concluir que a pedra, por exemplo, tem de obedecer à lei da gravidade - que, enquanto o missivista se limita a aconselhar-me a obedecer à lei da minha natureza, ele obriga a pedra a obedecer às leis de sua natureza pétrea. O que não consigo negar é que, em ambos os casos, existe, por assim dizer, esse missivista, um Poder por trás dos fatos, um Diretor, um Guia.

Não pense que estou indo mais rápido do que es­tou na realidade. Ainda não estou nem perto do Deus da teologia cristã. Tudo o que obtive até aqui é a evidên­cia de Algo que dirige o universo e que se manifesta em mim como uma lei que me incita a praticar o certo e me faz sentir incomodado e responsável pelos meus er­ros. Segundo me parece, temos de supor que esse Algo é mais parecido com uma mente do que com qualquer outra coisa conhecida — porque, afinal de contas, a úni­ca outra coisa que conhecemos é a matéria, e ninguém ja­mais viu um pedaço de matéria dar instruções a alguém. E claro, porém, que não precisa ser muito parecido com uma mente, muito menos com uma pessoa...

5. TEMOS MOTIVOS PARA NOS SENTIR INQUIETOS

Encerrei o último capítulo com a noção de que, na Lei Moral, entramos em contato com algo, ou alguém, acima do universo material. Acho que alguns leitores sentiram um certo desconforto quando cheguei a esse ponto, e pensaram, inclusive, que eu lhes preguei uma peça, embalando cuidadosamente no papel de embrulho da filosofia algo que não passa de mais uma "conversa fiada sobre religião". Talvez você estivesse disposto a me ouvir se eu tivesse novidades para contar; se, porém, tudo se resume à religião, bem, o mundo já experimentou esse caminho e não podemos voltar no tempo. Tenho três coisas a dizer para quem estiver se sentindo assim.

A primeira delas é a respeito de "voltar no tempo". Você pensaria que estou brincando se dissesse que podemos atrasar o relógio e que, se o relógio está errado, é essa a coisa sensata a fazer? Prefiro, entretanto, deixar de lado essa comparação com relógios. Todos nós que­remos o progresso. Progredir, porém, é aproximarmo-nos do lugar aonde queremos chegar. Se você tomou o ca­minho errado, não vai chegar mais perto do objetivo se seguir em frente. Para quem está na estrada errada, pro­gredir é dar meia-volta e retornar à direção correta; nes­se caso, a pessoa que der meia-voJta mais cedo será a mais avançada. Todos já tivemos essa experiência com as contas de aritmética. Quando erramos uma soma des­de o início, sabemos que, quanto antes admitirmos o engano e voltarmos ao começo, tanto antes chegaremos à resposta correta. Não há nada de progressista em ser um cabeça-dura que se recusa a admitir o erro. Penso que, se examinarmos o estado atual do mundo, é bastante óbvio que a humanidade cometeu algum grande erro. Tomamos o caminho errado. Se assim for, devemos dar meia-volta. Voltar é o caminho mais rápido.

A segunda coisa a dizer é que estas palestras ainda não tomaram o rumo de uma "conversa fiada sobre re­ligião". Não chegamos ainda no Deus de nenhuma reli­gião verdadeira, muito menos no Deus dessa religião específica chamada cristianismo. Tudo o que temos até aqui é Alguém ou Algo que está por trás da Lei Moral. Não lançamos mão da Bíblia nem das igrejas: estamos tentando ver o que podemos descobrir por esforço pró­prio a respeito deste Alguém. Quero, inclusive, deixar bem claro que essa descoberta é chocante. Temos dois indícios que dão prova desse Alguém. Um deles é o uni­verso por ele criado. Se fosse essa a nossa única pista, teríamos de concluir que ele é um grande artista (já que o universo é um lugar muito bonito), mas que também é impiedoso e cruel para com o homem (uma vez que o universo é um lugar muito perigoso e terrível). O outro indício é a Lei Moral que ele pôs em nossa mente. E uma prova melhor do que a primeira, pois co­nhecemo-la em primeira mão. Descobrimos mais coi­sas a respeito de Deus a partir da Lei Moral do que a partir do universo em geral, da mesma forma que sabe­mos mais a respeito de um homem quando conversamos com ele do que quando examinamos a casa que ele cons­truiu. Partindo desse segundo vestígio, concluímos que o Ser por trás do universo está muitíssimo interessado na conduta correta - na lealdade, no altruísmo, na co­ragem, na boa fé, na honestidade e na veracidade. Nes­se sentido, devemos concordar com a visão do cristia­nismo e de outras religiões de que Deus é "bom". Mas não vamos apressar o andar da carruagem. A Lei Mo­ral não embasa a ideia de que Deus é "bom" no sentido de indulgente, suave ou condescendente. Não há nada de indulgente na Lei Moral. Ela é dura como um osso. Exorta-nos a fazer a coisa certa e parece não se importar com o quanto essa ação pode ser dolorosa, perigosa ou di­fícil. Se Deus é como a Lei Moral, ele não tem nada de suave. De nada adianta, a esta altura, dizer que um Deus "bom" é um Deus que perdoa. Estaríamos indo depres­sa demais. Só uma pessoa pode perdoar, e não chega­mos ainda a um Deus pessoal — só a um poder que está por trás da Lei Moral e se parece mais com uma men­te do que com qualquer outra coisa. Mas ainda seria improvável dizer que se trata de uma pessoa. Caso se tra­te de uma pura mente impessoal, não há sentido algum em pedir que ela nos dê uma certa folga e nos descul­pe, da mesma forma que não há sentido em pedir que a tabuada seja tolerante com nossos erros de multiplica­ção. Nesse caminho, encontraremos a resposta errada. Tampouco adianta dizer que, se existe um Deus assim - uma bondade impessoal e absoluta -, você não pre­cisa gostar dele nem se preocupar com ele. Afinal, a ques­tão é que uma parte de nós está ao lado dele e realmente concorda com ele quando desaprova a ganância, as bai-xezas e os abusos humanos. Talvez você queira que ele abra uma exceção no seu caso e o perdoe desta vez; mas no fundo sabe que, a menos que esse poder por trás do mundo realmente deteste inabalavelmente esse tipo de comportamento, ele não pode ser bom. Por outro lado, sabemos que, se existe um Bem absoluto, ele deve detestar quase tudo o que fazemos. Este é o terrível dilema em que nos encontramos. Se o universo não é governa­do por um Bem absoluto, todos os nossos esforços es­tão fadados ao insucesso a longo prazo. Se, no entanto, ele é governado por esse Bem, fazemo-nos inimigos da bondade a cada dia e o panorama não parece dar sinais de melhora no futuro. Logo, nosso caso é, de novo, ir­remediável - inviável com ou sem ele. Deus é o nosso único alento, mas também o nosso terror supremo; é a coisa de que mais precisamos, mas também da qual mais queremos nos esconder. E nosso único aliado possível, e tornamo-nos seus inimigos. Certas pessoas parecem pensar que o encontro face a face com o Bem absoluto seria divertido. Elas devem pensar melhor no que dizem. Estão apenas brincando com a religião. O Bem pode ser o maior refúgio ou o maior perigo, dependendo de como reagimos a ele. E temos reagido mal.

Enfim, a terceira coisa que tinha a dizer. Quando decidi dar todas estas voltas para chegar a meu verda­deiro assunto, nunca tive a intenção de lhes pregar uma peça. Meu motivo foi outro: foi que o cristianismo só tem sentido para quem teve de encarar de frente os te­mas tratados até aqui. O cristianismo exorta as pessoas a se arrepender e promete-lhes o perdão. Consequente­mente (que me conste), ele não tem nada a dizer às pes­soas que não têm a consciência de ter feito algo de que devem se arrepender e que não sentem a urgência de ser perdoadas. E quando nos damos conta da existência de uma Lei Moral e de um Poder por trás dessa Lei, e percebemos que nós violamos a Lei e ficamos em dívida para com esse Poder — é só então, e nunca antes disso, que o cristianismo começa a falar a nossa língua. Quan­do você sabe que está doente, dá ouvidos ao médico. Quando perceber que nossa situação é crítica, começará a entender a respeito do que os cristãos estão falando. Eles nos oferecem uma explicação de por que nos en­contramos em nosso estado atual, de odiar o bem e tam­bém de amá-lo; de por que Deus pode ser essa mente impessoal oculta por trás da Lei Moral e, ao mesmo tem­po, uma Pessoa. Explicam que as exigências dessa lei, que nem eu nem você conseguimos cumprir, foram cum­pridas por Alguém, para o nosso bem; que Deus mes­mo se fez homem para salvar os homens de sua própria ira. E uma velha história, e se você quiser esmiuçá-la poderá consultar pessoas que, sem dúvida nenhuma, têm mais autoridade do que eu para falar dela. Tudo o que faço é pedir a todos que encarem os fatos — que compreendam as perguntas para as quais o cristianis­mo pretende oferecer respostas. Os fatos amedrontam. Gostaria de poder falar de coisas mais amenas, mas devo declarar o que penso ser a verdade. Evidentemente, pen­so que, a longo prazo, a religião cristã traz um consolo indescritível; mas ela não começa assim. Ela começa com o desalento e a consternação que descrevi, e é inútil ten­tar obter o consolo sem antes passar pela consternação. Na religião, como na guerra e em todos os outros as­suntos, o consolo é a única coisa que não pode ser al­cançada quando é buscada diretamente. Se você buscar a verdade, encontrará a consolação no final; se buscar o consolo, não terá nem o consolo nem a verdade — terá somente uma melosidade vazia que culminará em deses­pero...
[1] As informações sobre a blitz e os pilotos da Royal Air Force foram tiradas das seções dos anos 1941 e 1942 do livro Clive Staples Lewis: A Dramatic Life, de William Griffin (Holt & Rinehart, 1986), citação tirada de Cristianismo puro e simples.

[2] "The longest way round", citação tirada de Cristianismo puro e simples.

[3] "An amateur", de um colóquio radiofónico levado ao ar em 11 de janeiro de 1942. Ci­tado em Clive Staples Lewis: A Dramatic Life, citação tirada de Cristianismo puro e simples.

[4] "There are no ordinary people", citação tirada de "The Weight of Glory", sermão profe­rido por Lewis em 8 de junho de 1941 , citação tirada de Cristianismo puro e simples.